Entrevista UI Artist – Rodrigo “Foltz” Viana

Bem vindo ao Boitatá, Foltz. Antes de começarmos, pode falar para os nossos leitores um pouco sobre você, tipo o que você faz exatamente, suas formações e por onde você passou?

Olá. Primeiramente muito obrigado pelo convite, fico muito feliz pela oportunidade. Eu me desenvolvi como Designer e Concept Artist, sempre interessado por desenvolvimento de jogos. Comecei trabalhando como estagiário na Ilusis, uma empresa desenvolvedora muito boa de Belo Horizonte. Lá tive a oportunidade de ser instruído pelo Leandro Verassani, um UI Artist e UX Designer sensacional. Participei do desenvolvimento da interface do jogo Krinkle Krusher, juntamente com outros UI Artists. Após sair da empresa eu comecei a trabalhar em uma empresa do Canadá a Top Game Studio, que desenvolve jogos mobile baseados em Minecraft. Lá entrei como UI Artist Lead, sendo responsável pela criação das novas interfaces dos jogos. Também desenvolvendo 3D para os jogos quando há a demanda.

Foltz , o cenário de games no Brasil tem crescido cada vez mais, além de entusiastas já temos também desenvolvedores brasileiros e outros profissionais que trabalham no meio e já tivemos jogos publicados de vários gêneros diferentes como: Luta, RPG, MOBA e Aventura. O que você acha que causou esse “boom” da cultura de games aqui no Brasil?

Na minha opinião é o acesso. A internet é responsável por uma quantidade de conhecimento gigantesca atualmente, desde que você a veja como mais do que redes sociais e netflix, hahahha. Hoje em dia é muito mais fácil conseguir aprender processos completos de desenvolvimento de games e também outras áreas. A internet também abriu as portas para a comunicação, que é outro fator importante, as pessoas não precisam viajar para conhecer e trocar informações, tudo é instantâneo. O mundo está pequeno atualmente em termos de acesso. Eu mesmo, tirando o curso de Design e algumas pessoas que me ajudaram muito, o resto da minha formação é toda pela internet, pelo menos 80% do conhecimento que tenho atualmente foi adquirido através de tutoriais, forums e muita pesquisa, só assim consegui realmente entrar no mercado e ficar. E continuo fazendo isso, sempre que encontro um problema ou preciso de inspiração abro o navegador e começo a pesquisar.

Sobre o mercado de UI em jogos , o que te fez seguir esse caminho e quais os desafios que você encontrou?

Bom, eu achei uma oportunidade interessante de unir os meus conhecimentos como Designer e minha paixão por jogos. Geralmente ninguém pensa em se tornar um UI Artist, mas é uma área pra quem gosta de variedade, por ter muitas possibilidades diferentes, você precisa dominar conhecimentos de design, animação, efeitos visuais, ilustração e conhecimentos técnicos que envolvem a implementação das interfaces. No meu caso o maior desafio continua sendo a parte técnica, você precisa conhecer bem os processos técnicos que serão utilizados para tudo que você cria funcionar bem na engine. Geralmente nessa área é muito comum você aprender um pouco da linguagem de programação pra que você tenha maior independência e consiga se comunicar bem com os programadores na hora de apresentar suas ideias e dizer como elas irão funcionar. Outro ponto muito difícil é a questão da comunicação, UI Art não é só sobre uma interface bonita, se aquilo que você cria não é suficientemente claro pras pessoas que vão interagir com com o jogo você pode destruir o potencial de um jogo, então é muito importante desenvolver e testar tudo com outras pessoas. Realmente verificar se o que você pensou faz sentido pro público em geral.

Onde você acha que entra o papel do Design na vida de um UI Artist?

Em tudo heheh. Falando sério, UI Art é comunicação do início ao fim, então conhecimentos de comunicação, teorias de design e usabilidade são obrigatórios. Como até havia comentado na pergunta anterior se sua interface não comunica claramente, o jogo pode ser comprometido como um todo. Pode-se comparar muito a interface de um jogo com a de um website, se o usuário fica perdido ao navegar ele pode ir embora e não voltar mais, e é exatamente isso que acontece no mundo dos jogos mobile. Geralmente pode acontecer de na empresa ter um UX Designer, que juntamente com o Game Designer vai pensar nas principais funcionalidades de uma interface e sua usabilidade, mas mesmo nesse caso, o UI Artist precisa saber exatamente o que aplicar em termos de Design para criar uma interface visualmente interessante e que auxilie o jogador a entender o jogo.

As nomenclaturas da área de games são todas praticamente em inglês, isso chega a ser um problema?

É claro que seria interessante ter uma tradução para os nomes, até pra facilitar quando explicamos para as pessoas o que fazemos hehehe. Mas o que acontece é que com um mercado de desenvolvimento tão pequeno como é no Brasil ainda é algo que não foi pensado. Além do que quando pensamos em desenvolvimento de jogos lidamos com um mercado internacional, o que faz com que na verdade ter nomes em inglês facilita, vemos isso mesmo em empresas de outros países que não têm como sua língua principal o inglês. Dificilmente um jogo é pensado para o mercado interno somente, exceto no caso de jogos específicos como advergames e jogos educacionais. Outro fator que faz com que isso não seja um problema são os próprios profissionais, que por mais que não dominem a língua inglesa, em muitos casos, estão acostumados com os termos, por estarem em contato com o mercado constantemente.

Quais as ferramentas que você usa para trabalhar? Alguma dica para quem quer começar a aprendê-las?

Atualmente eu utilizo o Photoshop para criar rascunhos, wireframes e arte finalizada das interfaces. Utilizo muito também softwares 3D, quando preciso mesclar elementos tridimensionais na interface, aí entram o 3D max que eu uso, mas que tanto faz pra quem quer trabalhar com modelagem. Na empresa em que trabalho atualmente uso um software que cria voxel art, que são os blocos minecraft, chamado Magica Voxel, que é uma ferramenta sensacional para quem quer esse visual. Utilizo também o After Effects para desenvolver as animações e efeitos para a interface. Com ele faço testes para ver as possibilidades antes de envolver a engine, daí consigo experimentar antes da interface final. Finalmente utilizo demais a Unity, que é a engine mais utilizada para jogos mobile. Eu preciso ter um conhecimento mais profundo de como ela funciona, especialmente para interface. Aqui eu adiciono toda a arte criada previamente, implemento as funcionalidades básicas, que não requerem programação, crio as animações e efeitos visuais necessários.

Para aprender as ferramentas o que sempre falo pra todo mundo, o Google é seu melhor amigo, heheheh. Sério mesmo, se não fosse a internet não conseguiria fazer o que faço hoje, a melhor forma de aprender é através de tutoriais disponíveis de graça, ou mesmo cursos online se você domina o inglês. Só que pra isso você precisa de muita determinação, já que aprender praticamente sozinho pode ser um problema pra muita gente. Outra dica que eu dou é, tente alguma forma de desenvolver um jogo bem básico, não é necessário saber programar, procurando pela internet você consegue códigos básicos, mesmo que você desenvolva um jogo onde o personagem ande pra frente e para trás. Isso ajuda você a entender melhor o processo geral, porque mesmo que você vá trabalhar só com uma área específica de desenvolvimento, esse conhecimento vai ajudar muito.

Pra quem quer aprender unity, existe um canal no youtube muito bom chamado Brackeys, aqui ele ensina o processo completo para criar jogos simples, onde ele ensina os códigos e como implementar arte e outros elementos necessários para um jogo, vale a pena pra quem quer começar.

Onde você busca por inspiração e referências para os seus trabalhos?

Existem duas formas que utilizo demais, a primeira é o Pinterest, onde crio painéis sempre que vou começar a criar uma tela nova, lá você encontra de tudo. Outro método é jogando alguns jogos. Eu procuro jogar dois jogos diferentes por mês, no caso de mobile, porque só assim você percebe melhor como as interfaces funcionam. Você vê as animações, efeitos e interage com o jogo percebendo o que funciona ou  não. Você nem precisa jogar muito, percebi que por volta de 2 horas de jogo, você consegue ver praticamente tudo o que existe em termos de interface. Este é o melhor método e ainda tiro screenshots das telas para referências futuras.

Das Interfaces que você já fez, alguma em particular foi mais interessante ou desafiadora de fazer? pode nos falar um pouco do processo de criação para esse job em específico?

Olha, desafiador sempre é hahah. Mas acho que porque foi minha primeira, a HUD do Krinkle Krusher foi muito interessante, primeiro porque eu tive por volta de 2 meses pra trabalhar nela e depois que a temática e liberdade que tive para criar foi muito bacana. Apesar de ela não ser perfeita, gosto muito do resultado final e além disso foi ela quem abriu as portas para que eu continuasse na área.

O processo de desenvolvimento foi muito interessante, porque eu pude fazer todo o fluxo de criação, começando no papel, eu utilizei e ainda utilizo muito papel pra ter ideias, assim eu consigo agilidade e represento aquilo que estou pensando. Fiz diversos desenhos, com posicionamentos e estilos até chegar em uma ideia que funcionasse. Depois passei pro photoshop, já em cima das telas do jogo mesmo, testando cores, tamanhos e as formas que eu havia desenhando no papel antes. Nessa fase eu gerava imagens para testar no aparelho, que no caso era o PSVita, isso pra checar se a leitura estava correta, se as cores realmente proporcionavam a hierarquia e contraste necessários e também se a posição da interface em si não prejudicaria o jogo. Depois de tudo pronto comecei a parte de efeitos visuais, no caso partículas e outros recursos que criei para tornar a interface mais bonita, interessante e melhorasse a comunicação dela. Resumindo, fiquei nesse processo por mais ou menos 2 meses o que me deu oportunidade de aprender e testar bastante.

 

HUD do Krinkle Krusher

 

Alguma dica para quem quer começar no mercado de games de alguma forma?

Bom, a primeira coisa que eu digo é acostume-se a ser autodidata. Porque mesmo que você faça algum curso, o seu desenvolvimento vai depender quase inteiramente de pesquisa e estudo independente. O mercado é muito competitivo e as tecnologias se atualizam constantemente, então não dá pra esperar um curso novo aparecer toda hora, você vai depender de si mesmo quase sempre. Busque se conectar com pessoas da área, nem que seja para apenas segui las nas redes sociais, veja como elas trabalham tente entender os processos que a pessoa utiliza no seu trabalho. Um ponto óbvio, mas importante é saber o que você quer seguir, se é arte ou programação, e dentro de arte o que você gosta, ou já possui alguma habilidade. Porque tem gente que quer ser concept artist, então você precisa desenhar muito, todo dia o tempo todo, observar os artistas e criar uns 5 trabalhos muito bons, você não precisa de 50, ninguém quer ver isso, no mercado eles querem que você saiba fazer bem feito, quantidade vai ser quando você já estiver trabalhando. Mas se você não sabe ainda o que quer fazer ou se você quer ser um desenvolvedor e criar seus próprios jogos a dica é faça um jogo. O mais simples e básico possível, ele precisa ter uma mecânica, uma arte que nem precisa ser a melhor e funcionar. Isso vai fazer com que você entenda como funciona a área e dependendo pode até te ajudar a conseguir trabalho. Empresas pequenas de desenvolvimento valorizam muito o profissional que consegue criar um jogo sozinho, até porque em um ambiente com 15 pessoas trabalhando, quanto mais as pessoas conhecem sobre o processo completo, mais fácil fica criar jogos. Isso tá ficando longo né, rsrs, mas acho importante. A última coisa que vou dizer é aprenda inglês. Se você quer abrir sua empresa, mesmo que pra criar jogos com temas nacionais, você provavelmente vai precisar expandir e atingir o mercado internacional, então você precisa saber se comunicar. Por outro lado se você quer ser artista ou desenvolvedor, você vai precisar assistir muito vídeo no youtube pra aprender se ainda estiver estudando e pra conseguir trabalho e viver disso, você também vai precisar expandir suas possibilidades, o mercado no Brasil é pequeno ainda, então é bom considerar trabalhar fora, ou prestar serviço para desenvolvedores estrangeiros.

Gostaria de agradecer pela entrevista e fazer uma última pergunta que vai testar a sua criatividade, preparado?

Eu que agradeço novamente. Bora lá, vamos ver como anda minha criatividade hahah.

Não existe ainda algo que prove com 100% de certeza a origem do folclore do Boitatá aqui no Brasil. Estranhamente, existem outros seres mitológicos de outros povos que se assemelham à nossa querida serpente como o dragão chinês e o deus da destruição asteca, Quetzalcóatl. Se esses povos nunca se encontraram, o que você acha que aconteceu para tamanha semelhança?

Cara, essa é uma pergunta pra viajar o resto do dia hahaha. Mas interessante você perguntar isso, porque meu projeto pessoal de um jogo lida com questões relacionadas à arquétipos, que dizendo de uma forma bem simplificada, são símbolos que estão presentes no inconsciente coletivo, independente de cultura ou tempo. Por exemplo a figura da mãe é um arquétipo que com algumas pequenas alterações possui o mesmo significado em qualquer cultura. Mas enfim, baseado nisso as figuras mitológicas também são representações arquetípicas, ou seja a semelhança entre esses mitos é na verdade uma imagem desse inconsciente coletivo, que têm o mesmo significado em qualquer cultura, portanto se repetindo constantemente. O mesmo acontece com deuses, todos eles são representações de arquétipos, por isso a extrema semelhança entre suas histórias. Essa resposta acabou sendo mais científica do que criativa hahaha.

Valeu pela entrevista Foltz, onde as pessoas podem entrar em contato ou conhecer mais o seu trabalho?

Bom meus trabalhos atualmente estão no behance e também posto alguns processo no instagram  onde consigo mais contato com outros artistas.

Behance, aqui

Instagram, aqui 

 

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